A Floene Energias é o maior operador de redes de distribuição de gás em Portugal e assegura o fornecimento de energia a mais de um milhão de clientes, em 106 municípios, de norte a sul do país. Ao colocar na sua rede, experiência e compromisso ao serviço de uma transição energética justa e sustentável, a Floene consolida a sua visão de futuro enquanto agente impulsionador e parceiro estratégico no desenvolvimento da bioenergia avançada.
Para dar a conhecer melhor este compromisso assumido com a transição energética, Joana Appleton, Head of Investor Relations, Risk, ESG & Stakeholders da Floene, partilha a missão da empresa e o papel que pretende continuar a desempenhar neste processo de transformação.
1. Podemos começar com uma breve apresentação sua, do seu percurso e do seu cargo na Floene?
O meu nome é Joana Appleton e, depois de um percurso de cerca de vinte anos na The Navigator Company na área financeira, na gestão de risco, e como investor relations, sou, desde 2021, responsável pela área da sustentabilidade na Floene, liderando uma Direção de Coordenação que tem sob sua alçada a relação com investidores, o risco, a qualidade, a segurança, o ambiente, os assuntos europeus e as relações institucionais, e, por esta via, a responsabilidade pelo envolvimento que a Floene tem vindo a garantir com um conjunto alargado de interlocutores no desenho e na execução de políticas ambientais e climáticas ou na promoção dos gases renováveis e do seu papel na transição energética.
2. Em mais de 170 anos de existência enquanto empresa, como perspetiva o crescimento da Floene e o seu contributo para a descarbonização do país?
Durante os seus quase 178 anos, a Floene acompanhou de perto as profundas transformações sociais que o país foi vivendo, procurando, em cada momento, responder às necessidades de energia das famílias e empresas e ajudando-as a enfrentar os desafios que foram surgindo, em especial o grande desafio da transição energética.
O crescimento da empresa está hoje fortemente ligado à missão de contribuir para comunidades mais sustentáveis, liderando a transição energética em Portugal através de uma aposta clara na integração de gases renováveis, como o biometano e o hidrogénio verde, no sistema energético nacional, e no seu contributo para acelerar a descarbonização da economia e da sociedade.
3. A Floene tem vindo a assumir um papel ativo na transição energética, nomeadamente na adaptação da rede de distribuição de gás natural à nova geração de gases renováveis. Que importância atribui ao biometano neste contexto e como é que esta parceria com a ABA se inscreve nessa estratégia?
O biometano desempenha um papel central na estratégia da Floene para a transição energética. Trata-se de uma energia renovável, sustentável e tecnologicamente madura, que pode ser integrada diretamente na infraestrutura existente de gás natural, isto é, sem necessidade de quaisquer alterações, contribuindo para que, de uma forma mais rápida e económica, e com menores impactos ambientais, consigamos alcançar as metas de descarbonização com que estamos comprometidos a nível nacional e europeu.
A aproximação que fizemos à ABA – uma das entidades mais credíveis no panorama associativo nacional pelo trabalho que tem vindo a desenvolver em prol da valorização da bioenergia – decorre desta visão que temos para o futuro: o futuro onde a Floene atua como facilitadora de um ecossistema de produção e consumo de gases renováveis com foco na proximidade às comunidades e aos territórios, apoiando produtores locais em diversos setores (com destaque para o setor agrícola), promovendo a economia circular e a coesão territorial, assegurando a qualidade e a segurança da rede, e contribuindo para atingir as metas de neutralidade carbónica.
4. Que condições técnicas e infraestruturais a Floene já reúne para integrar volumes crescentes de biometano na rede? Há metas ou marcos específicos que possam ser partilhados?
A Floene é o maior operador nacional de distribuição de gás natural, gerindo 9 das 11 concessões regionais e abastecendo mais de um milhão de famílias e empresas em 106 municípios de norte a sul do país através de uma das mais modernas redes de distribuição da Europa, com quase 14.000 km e que, por ser maioritariamente composta por polietileno (94%), está 100% preparada para receber e distribuir biometano com os mais elevados níveis de qualidade e segurança.
Temos claramente identificadas as zonas com maior potencial de produção de biometano, e os locais preferenciais para a sua injeção na rede, e temos trabalhado de perto com alguns setores – como o setor agrícola e o da produção de resíduos – para tornar a nossa ambição uma realidade, garantindo que, até 2030, é possível substituir 10% do gás natural que o país não produz e que, por isso mesmo, tem de importar, por uma energia renovável que é produzida localmente, alavancando um conjunto vasto de benefícios económicos, sociais e ambientais.
5. Como veem a aposta de Portugal em soluções como o biometano? Em termos de viabilidade económica, quais são os principais fatores que determinam a competitividade do biometano face a outros vetores energéticos?
A aposta no biometano é uma decisão estratégica e é uma decisão acertada, alinhada que está com os objetivos e metas nacionais e europeus de descarbonização e com o desígnio da independência energética. Portugal dispõe de um significativo potencial para a produção desta energia limpa e sustentável, sobretudo a partir de resíduos agrícolas, agroindustriais, agropecuários, florestais e urbanos – contribuindo para a economia circular, para a resolução de vários e graves problemas ambientais e, também, para o desenvolvimento das economias locais e regionais.
Em termos de viabilidade económica, a competitividade do biometano depende de vários fatores críticos que temos vindo a identificar – e a trabalhar com as entidades responsáveis: do custo do próprio biometano (que decorre, entre outros, da logística associada à recolha e ao transporte da matéria-prima a partir da qual é produzido) à proximidade da rede de distribuição (na qual será injetado e que permite beneficiar milhões de famílias e empresas), passando, naturalmente, pelo conjunto de incentivos que permitem que o biometano seja uma realidade em Portugal, como a partilha de custos na ligação à rede das unidades de produção, as metas de incorporação vinculativas, as garantias de origem, os contratos de fornecimento a longo prazo, entre outros.
Sobre este aspeto, gostaria de salientar o excelente acompanhamento que a ABA deu ao Grupo de Acompanhamento e Coordenação do Plano de Ação para o Biometano, e à sua participação no questionário que, muito recentemente, foi promovido pela ERSE, que permitiram tornar ainda mais evidente a necessidade e a urgência de um enquadramento regulatório estável e mecanismos que reflitam o verdadeiro valor económico, social e ambiental do biometano e que permitam que esta energia se torne um dos pilares mais relevantes do nosso mix energético.
6. Portugal tem agora um enquadramento legal mais claro para o biometano, mas os projetos ainda são escassos. Que barreiras regulatórias ou económicas continuam a dificultar a escalabilidade da produção? E que incentivos considera essenciais nesta fase?
É uma excelente questão porque, apesar dos avanços no enquadramento legal – e, também, do ponto de vista político, com um Plano de Ação para o Biometano e um Grupo de Acompanhamento e Coordenação (GAC-PAB) com mandato até final de 2026 –, persistem inúmeros constrangimentos, nomeadamente de natureza regulatória e associados à morosidade e à complexidade dos processos de licenciamento.
A par da participação nos trabalhos do GAC-PAB, a Floene tem vindo a trabalhar com os seus parceiros europeus e com a consultora Roland Berger, com o objetivo de perceber de que forma outros países – como Espanha, França, Itália ou Dinamarca – conseguiram ultrapassar desafios idênticos, procurando, com este exercício, identificar que incentivos, ou conjunto de incentivos, melhor se adaptam à nossa realidade e nos permitem recuperar o atraso que temos neste domínio.
Este trabalho, que partilharemos, em primeira mão, com o Governo – quer com o Ministério do Ambiente e Energia, quer com o Ministério da Agricultura –, permitiu, desde já, colocar em evidência que a partilha de custos nas ligações à rede, as metas de incorporação obrigatória, o sistema de garantias de origem ou os apoios ao investimento (sobretudo numa fase inicial) poderão ser peças-chave para desbloquear o crescimento do biometano no nosso país.
7. Tendo em conta o papel crescente da sustentabilidade nos critérios de financiamento e investimento, como é que os projetos associados ao biometano têm sido recebidos pelo mercado financeiro e pelos stakeholders institucionais?
Uma das vantagens de ter sob minha responsabilidade direta a relação com os investidores – e com as agências de rating, que têm dado uma atenção crescente ao trabalho que a Floene tem vindo a desenvolver no domínio dos gases renováveis – é, precisamente, ter uma visão abrangente sobre o peso dos critérios de sustentabilidade – ambientais, sociais e de governance – e sobre o interesse reforçado dos mercados financeiros em projetos alinhados com a transição energética (não apenas pelo seu contributo direto para a descarbonização, mas, também, pelo impacto positivo nas comunidades locais e na economia circular).
Um interesse que reflete a maturidade desta tecnologia, e a estabilidade e previsibilidade regulatória que o biometano está prestes a alcançar (que reduz o risco associado e aumenta significativamente a sua atratividade) – assim esperamos e é para isso que trabalhamos diariamente –, mas, igualmente, a forma como os projetos de biometano são encarados: oportunidades de investimento de risco controlado e com um potencial de retorno estável e de médio-prazo.
Um trabalho que se traduz depois na vertente das relações institucionais, e nos contactos regulares que mantemos com um conjunto alargado de interlocutores, de quem temos sentido uma grande abertura para apoiar esta estratégia, porque está plenamente alinhada com as políticas ambientais, energéticas e climáticas.
8. Quais são os próximos passos da Floene em termos de expansão da sua atividade? E como antevê o papel do biometano no mix energético nacional até 2030?
O nosso compromisso é claro: tornar a infraestrutura de gás uma plataforma para a descarbonização, ao serviço das comunidades e da transição energética. E temos uma meta também ela muito clara: até 2050, descarbonizar totalmente a nossa rede, indo ao encontro do mandato que recebemos dos nossos principais acionistas [a Allianz Capital Partners – o maior fundo de infraestruturas europeu – e o consórcio Meet, que junta o maior conglomerado japonês (a Marubeni) com a terceira maior empresa de gás do Japão (a Toho Gas).
Como? Garantindo que a nossa rede está preparada para, de forma fiável, segura e eficiente, receber e distribuir gases renováveis, e acelerando a sua integração, com destaque para o biometano. A par, aprofundando o relacionamento com entidades como a Confederação dos Agricultores de Portugal, ajudando na identificação de potenciais de produção, apoiando produtores e associações de produtores, promovendo parcerias com entidades públicas e privadas, atuando como um verdeiro agente facilitador de ecossistemas de produção de biometano. E, claro está, investindo na sensibilização, na informação e na capacitação das comunidades, nomeadamente através do nosso programa de responsabilidade social Comunidades de Futuro e do nosso projeto de literacia energética Dá-lhe Gás – nada se perde, tudo se renova.
Tudo isto com a firme convicção de que o biometano é um pilar fundamental da transição energética em Portugal – de uma transição mais económica, com menores impactos ambientais, socialmente mais justa e mais inclusiva. E com a mesma convicção de que, na Floene, estamos preparados para liderar este caminho.