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A World Biogas Association (WBA) é a entidade global que representa o setor do biogás, comprometida em promover, defender e acelerar a adoção desta tecnologia renovável a nível mundial. Fundada oficialmente em outubro de 2016, a WBA tem como missão principal posicionar o biogás como uma solução energética sustentável de excelência, sublinhando o seu papel estratégico na gestão eficiente de resíduos orgânicos e no contributo para o desenvolvimento socioeconómico. A associação representa vários players do setor, desde associações nacionais, operadores, fornecedores, organizações agrícolas, instituições académicas, bem como empresas de gestão de resíduos.
Estivemos à conversa com Kavya Koonampili, responsável de Policy da associação, que nos deu a conhecer o trabalho desenvolvido e as perspetivas futuras para o setor, num contexto em que o biometano tem conquistado cada vez mais atenção em Portugal:
A World Biogas Association (WBA) foi criada com o objetivo de explorar o potencial das tecnologias de biogás na transformação das 105 mil milhões de toneladas de resíduos orgânicos que são gerados globalmente todos os anos em recursos valiosos, como, por exemplo o biogás/biometano, bio-CO₂ e biofertilizantes. A nossa missão é criar condições para a adoção em larga escala destas tecnologias, contribuindo simultaneamente para a redução das emissões de metano nocivas ao ambiente.
A WBA surgiu em 2016, por iniciativa de um conjunto de associações do Reino Unido, Estados Unidos e Itália, juntamente com outras 20 empresas pioneiras, e tem vindo a liderar o desenvolvimento e a promoção de soluções baseadas em biogás em todo o mundo. Somos a principal associação global dedicada ao setor do biogás, gás de aterro e digestão anaeróbica e representamos, atualmente, cerca de 100 organizações, incluindo associações nacionais e agentes do setor do biogás ao longo de toda a cadeia de valor global. Enquanto membro acreditado de várias entidades internacionais de renome, a WBA colabora, de forma estreita, com instituições como o Global Methane Hub, a Agência Internacional de Energia (IEA), a UNIDO, a FAO, a Comissão Europeia e as Cidades C40, com o objetivo de promover soluções energéticas sustentáveis e a valorização da economia circular por meio do biogás e biometano.
A WBA desempenha um papel central e muito particular na união e promoção do setor global de biogás, através de eventos de referência como a World Biogas Expo e o World Biogas Summit — os encontros mais relevantes a nível mundial para a indústria. Estes eventos reúnem, durante dois dias, decisores políticos e especialistas técnicos para debater algumas das soluções mais inovadoras neste campo.
Em 2024, lançámos o nosso programa emblemático #MakingBiogasHappen (MBH), apoiado pelo Global Methane Hub, TotalEnergies, GHD e DLA Piper, com o objetivo de acelerar a implementação de forma mais segura e financeiramente viável de centrais e projetos de biogás em todo o mundo. No âmbito deste programa, temos vindo a desenvolver alguns marcos regulatórios cruciais, como é o caso do Global Biogas Regulatory Framework e o International Anaerobic Digestion Certification Scheme, especificamente concebidos para o setor do biogás e que resultam de uma investigação global rigorosa e da colaboração estreita com especialistas e decisores políticos. Estamos igualmente a trabalhar para conseguir adaptar estes quadros regulatórios a nível nacional e regional, por meio da criação de Planos de Ação específicos para o Biogás.
Além destes projetos, liderámos também a campanha LetGreenGasCount, em parceria com outras entidades, onde procurámos garantir maior clareza na utilização de instrumentos de mercado para combustíveis gasosos renováveis no âmbito do Greenhouse Gas Protocol, que é o principal padrão mundial para medição e gestão de emissões de gases com efeito de estufa.
Procuramos ainda maximizar o alcance e impacto do projeto europeu Value4Farm, financiado pelo Horizon Europe, que pretende descarbonizar a agricultura através da integração de biogás, microturbinas e biorefinarias verdes nas explorações agrícolas. E, para além deste trabalho mais local, produzimos ainda relatórios de análise para cada país, onde fornecemos uma avaliação detalhada sobre o mercado do biogás, políticas públicas e perspetivas de crescimento, com a finalidade de oferecer aos stakeholders uma visão mais completa das oportunidades para o desenvolvimento sustentável.
O biogás e o biometano desempenham um papel crucial na transição energética global e os seus benefícios são inúmeros, principalmente relacionados com a segurança e autonomia energética, a gestão e valorização de resíduos e a promoção de práticas agrícolas mais sustentáveis. Por serem substitutos renováveis do gás natural, tornam-se particularmente valiosos em setores de difícil eletrificação, como o caso do transporte pesado e das indústrias mais intensivas em energia. São uma solução imediata e que contribui para a redução das emissões e para a autonomia face às importações de gás natural – algo que pode ser determinante para a competitividade económica de muitas regiões. Ao contrário da energia eólica e solar, que varia consoante as condicionantes que cada país apresenta, o biometano pode ser armazenado e gerido de forma mais estratégica. E isso constitui um complemento essencial a outras fontes de energia renovável.
Para além da produção de energia, o biogás contribui para uma economia mais circular, ao valorizar o tratamento sustentável de resíduos e reduzir as emissões de metano resultantes de uma decomposição mais “descontrolada”. O seu subproduto, o digestato, pode ser utilizado como biofertilizante e, assim, diminuir a dependência de fertilizantes químicos. Não só é uma solução que contribui para fortalecer os sistemas alimentares e energéticos, como também permite apoiar economias rurais através da criação de emprego e de novas fontes de rendimento para agricultores e municípios.
Por isso, as oportunidades de crescimento no setor são bastante significativas. Os decisores políticos têm reconhecido, cada vez mais, o papel dos gases renováveis no alcance das metas de neutralidade carbónica. Como exemplo, o plano REPowerEU da União Europeia prevê a produção de 35 mil milhões de m³ de biometano até 2030. Temos cada vez mais mecanismos de apoio que incentivam esta adoção e, visto que o biometano representa a vantagem de ser compatível com a infraestrutura já disponível e existente, investir nesta solução é simultaneamente reduzir custos alocados à transição energética.
No setor dos transportes, que é uma área onde a adoção do biogás tem crescido de forma significativa, vemos exemplos concretos da sua utilização em camiões, autocarros e navios. No transporte marítimo, em particular, apresenta um elevado potencial de adoção. Novas tecnologias, como o upgrading, a gaseificação de biomassa lignocelulósica e a integração de hidrogénio verde com CO₂ biogénico para produção de metano sintético, permitem aumentar a disponibilidade de matérias-primas. Além disso, o biogás e o biometano estão, cada vez mais a ser utilizados como matéria-prima para a produção de combustíveis alternativos, como o Sustainable Aviation Fuel (SAF) e o dimetil éter renovável (rDME).
Portugal tem vindo a dar passos significativos na integração do biogás e do biometano nas suas estratégias de transição energética e de economia circular. Um exemplo que podemos destacar é, precisamente, a reclassificação do digestato como subproduto e não como resíduo, que consideramos ser um marco pioneiro a nível mundial porque vem desbloquear valor nos sistemas de biogás. O Plano de Ação para o Biometano (2024-2040) tem acelerado este progresso, ao chamar a atenção de decisores e empresas para o potencial deste gás renovável e, por meio desta atenção, promover alterações políticas, tais como a facilitação da injeção de gases renováveis na rede e a definição de obrigações, incluindo a meta de 1% de gases renováveis injetados na rede e quotas mínimas de combustíveis de baixo carbono no setor dos transportes (11,5% a partir de 2023, ascendendo a 16% em 2029). Portugal tem ainda implementado uma série de incentivos financeiros, como o financiamento CAPEX, que são cruciais para apoiar o setor na sua fase inicial de implementação.
No entanto, ainda existe margem para aumentar o esforço de produção para que esta solução seja implementada em larga escala no país, principalmente no que diz respeito ao biometano. O uso do biogás como substituto no campo da eletricidade é algo relativamente consolidado no país, mas a produção do biometano ainda se encontra numa fase muito incipiente, sendo que esta etapa é altamente crucial para que o país possa atingir os seus objetivos de redução da dependência de gás importado.
É evidente que existe um conjunto crescente de mecanismos de apoio e incentivos destinados a melhorar a competitividade das energias renováveis, e o biogás não é uma exceção. Em muitos mercados europeus, a implementação de quadros de subsídios diferenciados que permita diferenciar matérias-primas agrícolas e resíduos é essencial para que se clarifiquem os benefícios associados à redução de gases com efeito de estufa ou até à incorporação de práticas circulares na indústria. À medida que os combustíveis fósseis enfrentam impostos crescentes, o biogás deve continuar a ser mais competitivo relativamente ao gás convencional, sobretudo quando consegue demonstrar reduções robustas de emissões ao longo do seu ciclo de vida.
A valorização de coprodutos do biogás, nomeadamente o digestato e o bio-CO₂, aumenta significativamente a competitividade económica do setor quando geridos de forma estratégica e complementar. Como já mencionámos, o digestato pode, por exemplo, ser utilizado como substituto para fertilizantes químicos. Já o bio-CO₂, que resulta do processo obtido durante o upgrading do biogás, pode ser direcionado para estufas e outros setores, como o alimentar.
O setor do biogás enfrenta uma série de desafios técnicos que continuam a limitar a sua eficiência e atuação. Algumas instalações operam ainda com baixo rendimento e desempenho ambiental inconsistente, principalmente devido a falhas na conceção, má-gestão e falta de stock de matérias-primas ou até por falta de conhecimento tecnológico. Existem algumas lacunas de segurança ainda por superar, que acabam por comprometer a confiança e credibilidade neste tipo de soluções e, por conseguinte, condicionam maiores oportunidades de investimento.
A indústria apresenta ainda estruturas regulatórias muito fragmentadas e inconsistentes, as políticas ainda estão muito dispersas entre governos e agências estatais. Tudo isto cria barreiras que dificultam e atrasam o desenvolvimento de projetos e desincentivam potenciais investidores. Associado a estes, surge ainda o obstáculo dos elevados custos de capital e do fraco acesso a financiamento adequado, que podem ter um peso enorme na escolha de muitos produtores. A ausência de políticas claras tem condicionado o setor, apesar do seu elevado potencial.
E além destas barreiras, muitos países ainda necessitam de superar algum sentimento misto por parte das comunidades, onde a falta de envolvimento social e de literacia ambiental face ao desenvolvimento destas soluções dificultam um maior investimento em soluções e tecnologias mais maduras.
Uma prioridade imediata é a simplificação dos processos de licenciamento. Em muitos Estados-membros, os promotores de projetos referem prazos de licenciamento que podem atingir 5 a 7 anos para a aprovação de instalações de biometano, o que compromete seriamente a confiança dos investidores e abranda a mobilização de capital. Com este condicionamento, as projeções atuais ficam aquém da meta da União Europeia de 35 mil milhões de m³ de biometano até 2030, estabelecida no âmbito do plano REPowerEU. Resolver este problema pode ser tão simples quanto criar balcões únicos para a aprovação de projetos, que permitam um processo de licenciamento mais ágil e informado.
Em simultâneo, é importante investir na implementação de um sistema idêntico para os países da UE em critérios de sustentabilidade, que defina de forma clara as normas impostas para a injeção e acesso à rede, bem como definições consistentes em termos de matérias-primas e requisitos de qualidade para o upgrading. Estas pequenas mudanças permitirão reduzir a fragmentação regulatória entre países e apoiar o desenvolvimento de um mercado europeu de biometano mais integrado e coeso.
Uma terceira área prioritária é o financiamento para projetos em fase inicial. Os elevados custos associados à conversão de biogás dificultam o planeamento e investimento por parte dos produtores. A European Biogas Association e outros stakeholders têm defendido a criação de instrumentos específicos, como fundos de garantia, condições de financiamento mais favoráveis a novos projetos e outros mecanismos de apoio governamentais. Parcerias público-privadas e outros subsídios específicos podem desempenhar também um papel essencial para colmatar a lacuna financeira.
Depois, é igualmente necessária uma maior clareza regulatória no que respeita à utilização de matérias-primas e às regras aplicáveis à conversão de resíduos em biometano. Garantir que apenas resíduos orgânicos e subprodutos adequados são utilizados é fundamental para assegurar a sustentabilidade ambiental e a credibilidade das operações. Neste domínio, existe ainda uma margem significativa de progresso, nomeadamente através do reforço das medidas que proíbem ou restringem o encaminhamento de resíduos orgânicos para aterro, da promoção da recolha seletiva de biorresíduos e, consequentemente, da criação de uma maior e mais previsível disponibilidade de matérias-primas para o setor.
Por último, o enquadramento regulatório deve estimular a procura por soluções de biometano, através de medidas como obrigações de mistura, prioridade de acesso à rede e o seu reconhecimento nos mercados de energia e de carbono. Exemplos concretos de como fazê-lo podem incluir metas nacionais de injeção na rede e objetivos para a utilização de gases renováveis no setor dos transportes.
A ABA, tal como outras associações nacionais, desempenha um papel crucial e estratégico em termos de conhecimento. É por meio da partilha de experiências e projetos que a WBA pode, por exemplo, criar uma primeira base de dados global do setor, atuando como parceira próxima e fornecendo informação de mercado atualizada. Este contributo permite construir uma visão global do setor e dar a cada país uma oportunidade de benchmarking de boas práticas e dados internacionais, fortalecendo a sua posição num contexto global.
Além disso, a partilha de experiências e know-how através de eventos internacionais, da participação em mesas redondas de outras associações pertencentes à WBA, são muito valorizadas para dar a conhecer boas práticas de inovação. A associação tem um papel importante em termos educacionais e de sensibilizar comunidades, investidores e decisores políticos para a importância do biometano e do biogás.
O setor de biogás e biometano está a crescer rapidamente na Europa, sendo que, só em 2025, representou já uma capacidade instalada de 7 mil milhões de m³. No entanto, a IEA prevê que, até 2030, o setor apenas consiga atingir 65% das metas previstas pelo REPowerEU de 35 mil milhões de m³ anuais e, a se cumprir, manteremos a dependência de importações do gás natural. É por este motivo que a valorização do biometano e de outros coprodutos assume um papel determinante para acelerar este crescimento e aproximar-nos da meta prevista em 2030.
Embora Portugal ainda não seja um dos principais protagonistas deste crescimento, o país tem potencial para aumentar o seu contributo significativamente na próxima década, com novos projetos que estejam já em preparação, mas também com incentivos adicionais que impulsionem o setor. O biogás oferece uma solução prática e escalável para o problema dos aterros em Portugal, ao reintroduzir os resíduos orgânicos na cadeia de valor e transformá-los em energia.